Os Sacis







Os Sacis estavam de boca aberta.
- Você esteve na cidade Pororó?
- Bem só no alto do redemoinho...
- Como você sabe dessa história de apartamento e elevador?
- Um menino me contou. Eu peguei roupa no varal e fui falar com ele.
- E ele?
- Pensou que eu era menino também.
- Não tinha perigo?
- De quê?
- Descobrir que você era Saci...
- Xiii... Sabem o que eu descobri?
- Diga logo! Pediram os dois.
- Menino não acredita em Saci!
- O quê?
- A gente esta lá, perto do mato, tinha falado de tudo... Então eu perguntei se ele tinha medo de Saci...
- E ele?
- Fala Pororó.
Pororó fez um ligeiro suspense e revelou.
- Ele riu muito.
- Riu?
- Disse que saci não existe.
- Saci não existe?
- Nós não existimos?
- Com essa, o Piriri desabou:
- A gente perde a casa, sofre feito Saci e ainda vem um menino dizer que Saci não existe...
buááá... buééé...


GALDINO, Luís. Sacici, siriri, sici. São Paulo: Editora: Nova Alexandria, 2001.

A Arte de Ser Feliz







Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs, vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas
gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros
e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes, abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lopes de Vega.
Às vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim...
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Cecília Meirelles. A arte de ser feliz.