A Bolsa Amarela - Capítulo X






NA PRAIA
Minha semana de castigo foi ótima: escrevi à vontade — tudo que passava na minha cabeça e tudo que acontecia na bolsa amarela. Escrevi também pra turma da Casa dos Consertos. Os quatro me responderam logo. Cada carta boa mesmo. E eu fiquei pensando que fazia uma bruta diferença a gente ter amigo.
Minha vida foi melhorando. Eu já não inventava muita coisa, meu pessoal não ficava tão contra mim. Comecei então a achar que ser menina podia mesmo ser tão legal quanto ser garoto. E foi aí que as minhas vontades deram pra emagrecer. Emagreceram, emagreceram, até que um dia eu pensei: daqui a pouco elas vão sumir.
As aulas começaram de novo. Uma noite eu sonhei que estava na praia soltando pipa. Acordei e falei pro Afonso:
— Sabe? Disseram que eu não podia soltar pipa.
— Por quê?
— Falaram que era coisa de garoto.
— Ué!
— Tá vendo? Falaram que tanta coisa era coisa só pra garoto, que eu acabei até pensando que o jeito era nascer garoto. Mas agora eu sei que o jeito é outro. Vamos lá na praia soltar pipa?
O Afonso topou. Comecei a juntar as coisas que precisava: linha, tesoura, um vidro de cola. Pedi uns trocados pra minha mãe e fui na papelaria comprar umas folhas de papel fino.
— Olha como o céu tá cinzento — o Afonso falou. — Compra papel vermelho, vai ficar um bocado bonito no meio de tanto cinza.
Comprei. Mas também comprei amarelo: tô sempre achando amarelo genial.
— Você vai precisar de bambu.
— Não vou, não senhor.
— Vai, sim senhora, você não entende de pipa.
— Entendo.
— Vai precisar, Raquel!!
— Você vai ver como eu não vou.
E não comprei nem bambu, nem ripinha, nem nada. Fomos pra Praia das Pedras. A Guarda-Chuva desatou a falar. Tão depressa que até se engasgou. E aí foi falando engasgado até chegar na praia. Quando ela acabou, o Afonso tava vibrando:
— Tá vendo, Raquel? não é à toa que eu gosto da Guarda-Chuva: ela tem ideias. Sabe o que é que ela me disse? Que eu não preciso mais ter medo de voar alto. Ela vai junto comigo, e se eu caio, ela dá uma de pára-quedas; e se eu caio de novo, ela dá outra; e assim toda a vida. Ela falou que chegou a hora da gente sair pelo mundo lutando pela minha idéia, chegou a hora de começar a vida de pára-quedas! — Pulou pra fora da bolsa, ajudou a Guarda-Chuva a saltar, e cantou em altos brados o tal do “Achei, tá achado, não vou mais desachar”. Quando viu que não tinha ninguém na praia, ainda ficou mais contente: — Olha só, com esse dia tão feio armando chuva, a praia tá vazia, boa mesmo pra gente não cair na cabeça dos outros.
A Guarda-Chuva desengasgou e ficou pulando pra cá, pra lá, abrindo, fechando, não sossegava. Qualquer um via logo que ela estava na maior aflição pra começar vida nova, pra subir de uma vez lá pro céu.
Fiquei parada. Sem saber se tava triste ou contente. Eles indo embora, a bolsa amarela ficava muito mais fácil de carregar, mas… sei lá. Olhei o mar pra ver se via o barco que levou o Terrível. Mas o mar tava vazio que nem a praia.
De repente, o Afonso ficou nervoso. Olhava o céu, abria as asas, dava um voinho à toa. Ria amarelo e explicava:
— To esquentando. — E dava outro voinho de nada. Ficou assim tanto tempo que a Guarda-Chuva acabou reclamando. Ele então botou a máscara e falou:
— Bom, lá vou eu, quer dizer, lá vamos nós.
— Pra que essa máscara, Afonso?
— Já pensou se eu encontro um avião lá em cima?
— O que é que tem?
— E se o meu antigo dono tá no avião e me vê pela janela? — Apertou bem a máscara. — Já pensou se ele abre a janela, me agarra e me leva de volta pro galinheiro? — Abriu as asas. A Guarda-Chuva, mais que depressa, se amarrou nele com a correntinha e ficou toda empinada, pronta pra entrar em ação. Ele voou pra cima de uma pedra, se jogou no ar, e começou a dar uma de passarinho, batendo as asas com força pra tomar impulso e subir. E subir mais e mais. Quando viu que já estava no alto, ficou tão feliz que caiu na gargalhada. Ria pra chuchu. Não tinha nem mais força pra bater asa. Começou a perder altura, se apavorou.
Quando eu vi que ele vinha caindo, me apavorei também. E aí (coisa mais gostosa!) a Guarda-Chuva abriu.
Foi só a Guarda-Chuva abrir que o Afonso parou de cair.
Eles vieram descendo bem devagar; parecia até um desenho parado no ar — ela bonita daquele jeito, ele com o rabo ainda mais despenteado por causa do vento que batia nas penas — um desenho bonito mesmo da gente olhar.
O vento levou eles pra lá, eu corri. Mas quando cheguei lá, o vento levou eles pra cá, eu corri de volta, e aí a gente se encontrou: eles tavam caindo de levinho na areia.
A Guarda-Chuva estava tão feliz que nem levantou: ficou com preguiça de tudo. Mas o Afonso cantou, virou cambalhota, inventou passo de dança, o tempo todo falando:
— Agora sim, posso sair pelo mundo, voando bem alto sem perigo de me esborrachar. Agora sim, posso lutar pela minha ideia. Agora sim, vai ser legal. — E de cambalhota em cambalhota chegou perto do mar. Veio uma onda e puf!, pegou o Afonso. Ele levou um trambolhão, quis levantar, a onda não deixou, ele sumiu.
— Afonso, Afonso!
Veio outra onda. E ficou vindo uma onda atrás da outra, mas nenhuma trazia o Afonso de volta. Olhei pra areia: a Guarda-Chuva nem tinha visto nada, tava até dormindo. Gritei pelo Afonso de novo. Mas ele não aparecia. Então entrei no mar de uniforme, sapato, bolsa amarela e tudo. Furei uma onda, mergulhei fundo, e aí só não fiquei de boca aberta senão ia engolir muita água: o folgado do Afonso estava lá na maior calma, batendo papo com uma porção de peixes, contando a história do Terrível, dizendo que se alguém quisesse costurar o pensamento deles, eles não deviam deixar e patatipatatá. Quando me viu, disse logo:
— Raquel, imagina que nenhum desses peixes tem nome. Eles chamam os amigos de Ei! Psiu! Cara!
De repente, pela primeira vez na minha vida, achei Raquel um nome legal; achei que não precisava de outro nome nenhum. Abri a bolsa, tirei tudo quanto é nome que eu guardava no bolso sanfona e dei pro Afonso. Ele foi distribuindo prós peixes:
— Você aí! você gosta do nome André? Então toma de presente. E você? Topa Reinaldo? Ou prefere Geraldo? Ah, você é mulher? Então quer Lorelai?
Mas não deu pra ouvir mais nada: meu fôlego acabou e eu tive que sair do mar. Comecei a tremer de frio; o jeito pra esquentar era soltar pipa. Recortei e colei os papéis pra fazer dois rabos bem compridos. Quando o Afonso saiu do mar eu já estava quase no fim. Ele ficou olhando de crista franzida.
— Que negócio é esse, Raquel? pra que dois rabos?
— São duas pipas, você solta uma e eu outra. Aí a gente vê qual que sobe mais. — Preparei dois rolos de linha. — Pronto!
— Pronto o quê? Cadê as pipas?
Abri a bolsa amarela e tirei minha vontade de ser garoto e minha vontade de ser grande. Elas tinham emagrecido tanto que pareciam até de papel.
— Tão aqui. Agora é só pendurar o rabo e amarrar a linha.
O Afonso ficou no maior espanto:
— Você não vai mais esconder as vontades dentro da bolsa amarela?
— Não. Elas viram que eu tava perdendo a vontade delas, então perguntaram se podiam ir embora. Eu falei que sim. Elas quiseram saber se podiam ir que nem pipa e eu disse: “claro, ué”.
— E a tua vontade de escrever?
— Ah, essa eu não vou soltar, Mas sabe? Ela não pesa mais nada: agora eu escrevo tudo que eu quero, ela não tem tempo de engordar.
Os rabos ficaram um barato. Vermelho e amarelo. Peguei a vontade de ser garoto; o Afonso pegou a vontade de ser grande, e a gente ficou vendo de onde é que vinha o vento. Quando eu berrei “já!” nós dois saímos correndo pras pipas pegarem o vento. Lá se foram as duas com o rabo sacudindo.
Puxa vida, como eu curti soltar aquela pipa! Já tinha cansado de ver garoto empinando pipa; sabia tudo quanto era macete, sabia ver de onde vinha o vento, só não sabia que era tão bom sentir a puxada da linha na mão.
A toda hora o Afonso gritava:
— A minha pipa tá mais alta! — E toca a dar linha.
Eu dava mais linha também:
— Que nada, é a minha! olha só.
O tempo piorou; o céu foi ficando cheio de nuvem escura.
Toca a dar linha, toca a dar linha, minhas vontades já estavam tão longe! A gente ficou olhando pra elas. Nem viu a linha chegar no fim e ir embora também.
O vento soprou mais forte. As pipas abanaram o rabo e sumiram atrás das nuvens. Ficamos esperando um tempão. Mas elas não apareceram mais. Aí o Afonso resolveu:
— Bom, tá na hora de sair pelo mundo.
— Mas você já vai hoje?
— Agorinha.
— Mesmo?
— Mesmo.
Fiquei quieta. Pensando como é que ia ser. Ele acordou a Guarda-Chuva; depois falou:
— Vou sentir saudade de você, Raquel. Mas qualquer hora dessas a gente dá um pulinho aqui.
— Tá. Quando eu vier procurar o barco eu procuro vocês também.
— Não esquece de olhar atrás das pedras: vai ver a gente tá lá fazendo um piquenique e você nem vê.
— Combinado.
A gente se abraçou forte, e a Guarda-Chuva fez um discurso enorme. Quando ela acabou, o Afonso traduziu:
— Ela disse “tchau”.
Os dois se prepararam; e quando ele saiu voando ela ainda me jogou um beijo. Num instante eles sumiram.
Tanta coisa estava sumindo no ar que eu nem sei o que é que eu pensei. Só sei que começou a chover, e quando fui fechar a bolsa amarela eu vi o Alfinete de Fralda. Tirei ele pra fora. Mais que depressa a pontinha dele abriu e foi riscando a minha mão:
— Deixa eu ficar? Já tô tão habituado a morar na bolsa amarela. Eu não peso nada… E é bom andar sempre comigo: de repente você tem outra vontade que começa a crescer demais e eu, pim! dou uma espetada nela. Deixa eu ficar?
— Deixo.
— Deixa mesmo?
— Deixo sim.
— Então deixa.
Botei ele de novo no bolso bebê e fui andando pra casa.
A bolsa amarela tava vazia à beca. Tão leve. E eu também, gozado, eu também estava me sentindo um bocado leve.


FIM
Lygia Bojunga
A bolsa amarela
Rio de Janeiro, Casa Lygia Bojunga Lda., 2004

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